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Crítica Musical

Noiserv – «A Day in the Day of the Days»

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David  Santos é no meio artistico conhecido, e cada vez mais reconhecido, como Noiserv. Mas quem é ele afinal? Resumidamente, é um “one man band” que delícia o ouvinte através das suas melodias e que transmite de forma clara a sua paixão pela música. Pôs em causa a estrutura habitual de uma banda e demonstrou-se a altura do projecto, que de forma ambiciosa conseguiu atingir o coração dos portugueses.

Por Tiago Queirós

O meu primeiro contacto com este tipo de formato começou com o australiano Xavier Rudd, que sozinho conseguia captar a atenção do público, transpirando musicalidade pelo seu corpo através do seu multi-instrumentalisto, muito raro em palco. Hoje em dia, graças ao crescimento de outros géneros distintos como o Drum'n'Bass e o Dubstep, assim como um novo estatuto micénico de autênticos talentos naturais do Beatbox ajudaram ao desenvolvimento de performances ao vivo que apoiassem e desenvolvessem a sua arte. Exemplos como Dub FX e Beardyman representam todo um crescimento assinalável na procura deste tipo de artistas/ performers, cada vez mais visitados através da plataforma Youtube. A base poderá ser apontada ao estilo de composição da própria música electrónica que também ela cria bases e acrescenta os pormenores ao longo da sua composição.


O segredo passa pelo uso de tecnologias de loop , que em tempo real permitem a criação do tema que vai crescendo e adensando-se cada vez mais, tornando-o completo e por vezes surpreendente.

A música mais uma vez quebra dogmas, e o instrumento em si deixa de ter a importância que tinha, voltando à origem que o criou – o som.


Mais uma vez a Optimus Discos distingue-se no apoio a este projecto, lançando de forma gratuita o download do  EP «A Day in the Day of the Days» que se segue ao primeiro álbum « One Hundred Miles of Thoughtlessness», que merecia uma maior visibilidade, mas, o futuro é o destino, e do passado ficam as memórias. E o futuro aparenta sorrir ao David.


O dia é a base deste EP. Nele inserimos o presente, o nosso quotidiano e a nossa vivência.
«Mr. Carrousel» é o início da jornada diária. Cheia de altos e baixos. 6 : 00 am temos o dia pela frente, como se de uma tela em branco se tratasse. O tema single é espelho de todo o álbum. Poético na harmonia, demasiado belo no intimismo que levanta. Sentido nas teclas do orgão e carregado na voz.




A simplicidade no multi-instrumentalismo e a envolvência que o low-tempo cria, afasta qualquer tipo de comparação com os exemplos show-off que apresentei anteriormente. Noiserv acima de tudo é original na sua humildade, na sua aparente solidão.

Diana Mascaranhas dá cor e imagem à ideia, no vídeo que o apresenta ao mundo. Mundo esse que infelizmente parece só ter aberto os olhos com a cover vitoriosa de «Where is My Mind?» original dos Pixies.


A meio da manhã , 11: 15am para ser mais preciso, o ritmo aumenta ao som de «The Sad Story of a Little Town»  que demonstra um certo progressismo na ideia base de cantar o Dia. Um grande tema que das cordas da guitarra parece criar fios de marionete que se prendem aos nossos pés, aos nossos braços... Envolve, prende, perfura, a música de Noiserv não é estática como parece, é bem pelo contrário, uma fonte metamorfósica de sentimentos e emoções que mudam e evoluem  ao suceder de audições.


«B.I.F.O.» é um dos temas que considero chave, não só neste EP, mas no historial do seu ainda recente projecto ( algures em 2005 como o próprio aponta). 1: 58pm.,  o tema diz que nasceu num orgão proíbido ( Born In a Forbidden Organ), possivelmente não o será, mas se assim foi , fez-se magia. O momento em que o homem que dá a cara, dá mais do que o talento como músico e demonstra o cantor que há em si.


Ao final do dia repensamos o que se fez e o que ficou por fazer. «Time 2» é possivelmente o tema menos monocromático de todo o EP.  É um tema de reflexão, apontado para repensar aquilo que fazemos, que somos e que queremos ser. Mais do que a letra, o sentimento. Picos de confusão, e não me refiro á música em si, mas à consciencialização que a música aparenta criar. São 7:10pm e parece que não podemos voltar atrás no dia.

«Attenagro» é o momento mais “fechado”. Reservado, acusa o cansaço de dias que podem ser ingratos, mas que no entanto não são, nem podem ser, considerados o fim. O amanhã pode não ser garantido, mas devemos sempre lutar por ele.

«A Day in a Days of the Day» é sentido demais para não ser levado a sério. É a entrega do artista. Mais do que isso, é a entrega de um homem, que apesar de sozinho, não está só.
Noiserv é tudo menos convencional. Dos instrumentos ao intimismo necessário para conseguir captar a virtude da sua música. De longe, um dos projectos mais interessantes a nível nacional.

Estão à espera de quê para o adquirir?

 

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