Avançar para o conteúdo principal

Crítica Musical

 Um supergrupo a não perder

Crítica ao álbum homónimo "Them Crooked Vultures"
2009


Ao som de Them Crooked Vultures voltamos ao guitar hero de outros tempos, aqueles onde uma guitarra tinha seis cordas e não cinco botões. É extremamente injusto resumir esta banda a uma espécie de Real Madrid. É galáctica? Sim. Resume-se a isso? Não!
Por Tiago Queirós


A cumplicidade entre Josh Homme e Dave Grohl é conhecida do público já há algum tempo.  Não podemos negar o peso do nome Led Zeppelin , que faz levantar muitas orelhinhas - confesso, também as minhas.

Um veterano de guerra como John Paul Jones não iria cair na cantiga do ladrão se não valesse a pena… 
À primeira audição parece que estamos perante uma evolução de sonoridade dos Queens of the Stone Age, os vocais estão lá para isso mesmo, nos trocarem as voltas todas. Que registo de Josh mais uma vez.

Hard Rock puro e duro como nem Velvet Revolver conseguiram transmitir para o novo milénio, pelo menos com Libertad ( Contraband é outra história(zinha)..).


O resultado de tão distinta equação poderá ser o mesmo para quem vai reconhecendo QOTSA (Queens of The Stone Age)  e EODM ( Eagles of Death Metal), mas o mestre de cerimónias e a arma secreta é sem dúvida John Paul Jones, com os seus 60 e picos a transbordar de experiência e musicalidade.

A linha de baixo, por vezes subtil, cria toda a dinâmica do grupo. Robert Plant e Jimmy Page ocupavam demasiado espaço em palco para dar a especial atenção ao elemento que parecia ser o mais dispensável dos LZ… Quem me dera ser assim tão dispensável!

Por exemplo, «Reptiles», demonstra todo um resultado de anos e anos de experiência e evolução do antigo projecto do Sr. Jones.

Dave Grohl por sua vez relembra os tempos áureos de Nirvana a abrir a década de 90 cheio de energia contagiante na ponta das baquetas. O som seco, sujo, aparece desta vez mais trabalhado e contido , mas sem envergonhar um John Bonham. Certamente uma referência neste álbum.

«No One Loves Me & Neither Do I» é a camisola deste álbum homónimo. O compasso de espera marcado pela bateria abre caminho a um tema bem groove e de certa forma psicadélico,  criando todo um imaginário para o rumo que o álbum irá levar…

Sente-se um Dave «nervoso», com vontade de explodir – seja feita a sua vontade.
Uma batida pesada no ponto, um bom riff sem pressas… lembram-se de «Kashmir»? Apliquem isso ao novo milénio…

«Mind Eraser, No Chaser» é o primeiro momento mais dançável, mais old-school , rock’n’roll sem espinhas. O registo vocal de ambos é de facto um Ying e um Yang genuíno. A complexidade dos temas não os obriga necessariamente a uma progressividade forçada e penso que este seja o grande segredo na qualidade deste Them Crooked Vultures. Ainda é possível fazer temas memoráveis com menos de cinco minutos.

«New Fang» faz bater o pé, Josh ao longe (efeitos) consegue-nos chegar ao ouvido, num blues-rock bem saudável. Que tema rasgado, belo, trabalhado mas no entanto fluído.. Haveria um melhor single de apresentação?

«Dead Ends Friends» tem a marca de Josh, no entanto «Elephant» é todo ele um relembrar de músicas como «Rock’n’Roll» e «Black Dog».  E já que estamos numa de nostalgia, aproveita-se a onda e entramos num modo anos 70/80, pegamos na nossa air-guitar e curtimos ao som de «Scumbag Blues»- descomprometido num tom perfeitamente genial.

É de realçar que denota-se uma certa falta de Foo Fighters dentro do álbum, será mais cliché dizer o contrário do que outra coisa. O que é certo é que o grupo de Dave Grohl tem tido uma certa dificuldade em encontrar o rumo doutros tempos áureos, e não comerciais como os mais recentes – repare-se que eles eram um exemplo perfeito do ponto de equilíbrio!

O ritmo cativante das primeiras oito músicas é repentinamente cortado por um intervalo («Interlude With Ludes») que me pergunto a cada audição: até que ponto é um contributo para este álbum? Cria expectativa…Ou pela primeira vez a vontade de carregar no botão para o próximo tema…

O título reduzido «Warsaw or the first breath you take after you give up» é a camuflagem de um dos temas onde o baixo de John Paul Jones se destaca. Um acelerar subtil de ritmo num quebra compasso total a meio da música faz-nos crer que este tema poderá ser daqueles a que nos referimos como mágicos nos concertos ao vivo. O instrumental prova a qualidade e a experiência do trio. É aqui que reconhecemos algo de muito especial neste projecto.

As influências mais recentes são denotadas em «Caligulove» e «Gunman», num registo mais a tender para certas bandas influentes da ultima década em terras de Sua Majestade. Sente-se uma certa quebra inexplicável, a diferença de um 5/5 para um 4/5…

«Spinnig in Daffodils» faz-me relembrar Scott Weiland (Stone Temple Pilots, Velvet Revolver) em registos como «Vasoline» onde tende em enrolar a voz de uma forma mais sensual do que rasgada, contida no ponto. Um tema que transpira sex appeal.

O trio despede-se numa espécie de marcha… Metemos o modo replay e consumimos mais uma vez a maravilhosa e catchy «No One Loves Me & Neither Do I». Nunca soou tão bem dizer tal frase.


Não reúne o melhor de cada elemento, mas a sua comunhão faz deste um álbum mais do que conseguido . Sem dúvida, um dos projectos mais interessantes dos últimos tempos...


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Roquivários no Luso Vintage

Link da imagem O início da década de 80 ficou marcado pelo aparecimento de diversas bandas rock no panorama nacional. A causa foi o estrondoso sucesso do álbum de estreia de Rui Veloso “Ar de Rock” que abriu caminho para novas bandas emergirem. Umas singraram na cena musical, até aos dias de hoje, caso é dos Xutos & Pontapés, UHF ou GNR, enquanto outras ficaram pelo caminho, após algum sucesso inicial. Destas destacam-se os Roquivários que encontraram no tema “Cristina” o seu maior êxito junto do público.    Por Carmen Gonçalves A banda formou-se em 1981 no seguimento do “boom” da cena rock, sob o nome original de “Rock e Varius”. Esta designação pretendia reflectir as influências musicais que passavam por vários estilos, não se cingindo apenas ao rock puro e duro. A música pop, o reggae e o ska eram variantes fáceis de detectar no seu som, e que marcaram o disco de estreia , “Pronto a Curtir”, editado em 1981.   Apesar de a crítica ter sido dura c...

Patrick Wolf em Modo Pop

 Link da imagem O primeiro Modo Pop do mês leva-o a um universo de excentricidades e manias que só um conhecido senhor na onda electrónica podia praticar. Convosco Patrick Wolf.    Por Ana Luísa Silva Menino mauzão, irreverente e deveras surpreendente. É assim que o conhecemos e é assim que ele se deu a conhecer na cena musical. Mas as pessoas vão amadurecendo, mudando e Wolf está a crescer. O adolescente mais colorido da onda indie começou por lançar dois álbuns que de certo modo não passaram de pouco atraentes ( Lycanthropy em 2003 e Wind in the Wires em 2005), juntando delicados toques de piano e cordas à electrónica mais grotesca. Os dois álbuns foram carismáticos e muito “Patrick-Wolf-adolescente”, mas não chegaram para elevar o artista ao estrelato que ele pretendia.  E é com The Magic Position que Wolf consegue sacudir as nuvens negras e manhosas que se instalaram sob a sua carreira com os álbuns anteriores, redefi...

The Feelies em Modo Classic Rock

Link da imagem Um tema original dos Rolling Stones editado em 1966. A letra triste e revoltada, o compasso forte, a voz de Mick Jagger e a guitarra de Richards ficam no ouvido de todos e, umavez que se oiça, é impossível esquecer Paint it Black… Agora em análise no Modo Classic Rock  desta semana, com especial atenção para a versão dos The Feelies: para conhecer ou relembrar. Por Maria Coutinho Depois de ser o primeiro nº 1 de tabelas de vendas onde um dos instrumentos de destaque é a cítara (tocada por Brian Jones), o hino de revolta de Jaegger/Richards ganhou uma nova batida indie/punk pela mão dos The Feelies, a banda de New Jersey que deu cartas na cena alternativa de Nova Iorque desde o final dos anos 70 a 1992. A história da banda é tudo, menos linear: teve de várias formações, diferentes editoras, períodos de actividade e repouso, fracos resultados de vendas, mas muita notoriedade na cena musical alternativa americana. Os The Feelies chegaram a ser conhe...