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John Carpenter na Máquina do Tempo

Desde a sua primeira longa-metragem (“Dark Star”/”A Estrela Negra”, em 1973) que o realizador nova-iorquino John Carpenter tem consagrado a sua carreira ao medo, ao terror, ao fantástico, às fábulas apocalípticas, à ficção científica. Aos 62 anos é o autor de uma das obras mais ricas de entre o cinema americano das últimas 4 décadas, além de ser seguido por um autêntico clube de admiradores fiéis, que elogiam cada um dos seus inconfundíveis filmes. Vamos saber um pouco mais dele através das suas próprias palavras.

Por Rato cinéfilo

A INFÂNCIA

A minha primeira recordação do cinema é provavelmente “The African Queen” (“A Rainha Africana”), de John Huston. Lembro-me de o ter visto com os meus pais num cinema que se chamava Strand, em Carthage, no estado de Nova Iorque. As sanguessugas coladas nas costas de Humphrey Bogart tiveram sobre mim um efeito terrível. Mas creio que a primeira experiência realmente terrificante que me aconteceu no cinema foi a projecção em 3 dimensões do filme de Jack Arnold “It Came From Outer Space”. Na cena de abertura havia um meteorito que caía no deserto. Depois, subitamente, começava a dirigir-se em direcção da câmara a toda a velocidade, em chamas, até que explodia. Por causa do efeito do relevo, tive a impressão de que o meteorito me ia explodir na cara. Saltei do meu lugar e pus-me a correr para a saída. Mas lembro-me que, segundos depois, o meu medo se transformou em excitação. Foi certamente uma das experiências mais incríveis que me sucederam em criança. Voltei para a minha cadeira, a pensar: “Um dia, também quero fazer isto. Quero que as pessoas sintam aquilo que estou neste momento a sentir”.

A minha mãe levava-me muito ao cinema. Chegávamos a ir mais de duas vezes por semana. Já mais velho, continuei a frequentar assiduamente as salas de cinema. Ia ver tudo. Westerns, comédias musicais, filmes de ficção científica, filmes de terror, comédias, dramas, serials...
Depois de ter visto “Forbidden Planet” (“O Planeta Proibido”), em 1956, percebi que queria ser aquilo a que se chamava um “realizador”. Peguei na câmara Super 8 do meu pai e comecei a fazer filmezinhos com os meus amigos. Graças a essa pequena câmara descobri algumas regras básicas do trabalho de cineasta, como a montagem, a filmagem de câmara ao ombro, ou ainda a maneira de enquadrar.


APRENDENDO COM OS MELHORES

Na USC (University of South California) passávamos muito tempo a ver retrospectivas consagradas a grandes cineastas. E lembro-me de que no fim das projecções muitos deles vinham falar-nos sobre os seus filmes. Fazíamos perguntas e eles respondiam. Mas na maior parte das vezes aquilo transformava-se num imenso forum onde as perguntas eram disparadas em todas as direcções. Foi assim que tive o enorme privilégio de ouvir realizadores como Orson Welles, Howard Hawks, John Ford, Alfred Hitchcock, Roman Polanski ou Billy Wilder a falarem do seu trabalho. Falavam de tudo: dos filmes, das suas carreiras, da indústria do cinema, da direcção de actores, da forma como abordavam certos temas, da sua técnica ou do seu estilo visual. Ser estudante na USC, naquela época (final dos anos 60), foi verdadeiramente uma oportunidade extraordinária. Tentei portanto reter e integrar destes mestres do cinema tudo o que pude.


O TERROR

Só há duas maneiras de fazer filmes de terror. A primeira é a que nos apresenta uma pessoa (pode ser uma ou várias, é igual), que enfrenta um perigo que lhe é exterior, que diz "atenção, há qualquer coisa aqui fora à nossa espera", que tanto pode decorrer num bosque como numa mansão. É, de facto, alguém que enfrenta um medo que vem do exterior. A segunda é a que apresenta um homem que enfrenta um terror que surge de um lugar muito mais aterrador: do seu próprio interior, o medo surge-lhe do coração. Eu sempre dei a primazia à história e admiro os que são capazes de fazer filmes em que a maldade surge do próprio ser humano, porque tenho a profunda convicção de que são muito mais difíceis.

HOLLYWOOD

Sobrevivi a Hollywood, mas muito poucos o conseguiram fazer. Alguém acredita que eu dê alguma importância ao que fazem aqueles tipos de gravatas depois de mais de 30 anos a ouvi-los dizer disparates? Claro que não, sempre fiz o que quis. Se olharmos para as bilheteiras americanas, vemos que 80% daquilo são aquelas sequelas horríveis. Isso é Hollywood, é-lhes indiferente fazer algo original, só entendem a linguagem dos números. Já não existem os estúdios, é tudo dirigido por grandes corporações que ninguém entende. A mim não me chateiam, já sabem que não estou interessado em nada do que possam oferecer-me, e assim evito aquelas conversas surrealistas que têm alguns dos meus colegas.

KURT RUSSELL, O ACTOR FÉTICHE

Kurt é um grande actor e damo-nos às mil maravilhas. Ele foi o meu alter ego no cinema em alguns dos meus melhores filmes, sabe captar na perfeição o que procuro nas minhas personagens e consegue dotá-las de matizes. Adoraria voltar a trabalhar com ele, mas nesta altura Kurt também é muito caro. E sabem uma coisa? Eu também quero sê-lo, adoraria ser tão caro como ele.

OS GÉNEROS

Sinceramente, não me vejo a fazer um musical, com um monte de gente a parar de conversar e a começar a cantar. Nem uma comédia... eu não sirvo para isso. Faço o que fiz toda a minha vida, que é a única coisa que sei fazer, e portanto... é o que faço. Alguém imagina um produtor a vir a minha casa com um argumento e dizer-me - "Olha, John, gostavas de adaptar esta obra da Jane Austen para nós? Agradecíamos-te muito" - e a oferecerem-me um cheque? Claro que lhes respondia: "Por favor, já olharam bem para mim?" Felizmente isso nunca acontece, e a verdade é que não sei se poderia ultrapassar isso... adaptar Jane Austen... ufff, seria demasiado!

MEDOS

Medos? O único que me tira o sono são os play off da liga de basquetebol americana, a NBA... Nem sequer tenho pesadelos à noite. Eu não acredito em nada do que conto, não acredito em monstros, nem em lendas diabólicas, nem em seres maléficos, nem em Ovnis... eu só acredito na ciência, só me preocupo com os avanços científicos, que, por outro lado, foi o que nos deu tudo aquilo de que podemos desfrutar. Por isso, quando me meto na cama, durmo como um tronco. Os pesadelos deixo-os para os meus filmes.

O WESTERN

Toda a gente sabe que tenho passado a vida inteira a fazer westerns. Adoro westerns. Dizem que homenageio sempre Howard Hawks, e sabem que mais? É absolutamente verdade. Adoro os filmes dele: são inteligentes, as personagens têm entidade, podemos sentir o que querem transmitir-nos. A única coisa que faço é mudar a acção: procuro novas paisagens para continuar a fazer o mesmo. E continuarei a fazer westerns, simplesmente porque acho que é o que faço melhor. Terror? Sim, mas westerns de terror, como “Ghosts From Mars” (“Fantasmas de Marte”). Que ninguém vá ver o filme a pensar que é um filme de acção ou de terror. Não façam confusão... é um western. Só que passado em Marte.

LOS ANGELES

Nunca me vou fartar de Los Angeles: adoro aquela cidade, é maravilhosa. Mas quando falamos do meu país, bom, há algumas coisas que não têm remédio... a perseguição aos fumadores, os problemas que têm com o sexo... O meu próximo filme vai ter muito sexo, mas mesmo muito sexo... até tenho um título possível, "I Did You Last Summer". É bom, não é verdade?... É que no meu país são uns puritanos: vou repeti-lo para quem não tenha ouvido bem, pu-ri-ta-nos. Suponho que agora terão entendido. Por exemplo, vê este cigarro? Isto é algo delituoso até aos limites mais surrealistas. Apesar de tudo, acho que nada pode ser pior que a época de Reagan. Sim, definitivamente é impossível que algo seja pior que a época Reagan.

OS FESTIVAIS

Fico sempre surpreendido quando me convidam para festivais e uma série de eminências me tratam por senhor Carpenter e insistem em chamar-me autor. Eu sou apenas um operário, um simples operário. Rodo os filmes o melhor que sei e nunca tento que alguém me aplique adjectivos como o de autor; mas agradeço, claro. É melhor que nos chamem autor do que imbecil. Por outro lado, também me agrada conhecer pessoas que, de facto, gostam dos meus filmes, e se voltar atrás no tempo recordo que “Assault On Precinct 13” (“Assalto à 13ª Esquadra”) não me rendeu um dólar até o terem passado no Festival de Londres. Por isso, às vezes sinto-me, nos festivais, como um bicho estranho. Mas nem sempre... é uma sensação estranha.

A MARCA DA CASA
 
Às vezes as pessoas dizem-me: "Não acha que é muita presunção colocar o seu nome antes do título dos filmes?" A única resposta que posso dar-lhes é: "Sabem, levei uma eternidade a ganhar esse estatuto, e não foi fácil". As pessoas que vêm o meu nome nos meus filmes sabem o que lhes ofereço, não vão enganadas, podem ir ao cinema e sabem exactamente o que vão ver, Depois de tantos anos e tantos filmes, continuo a ser o mesmo de sempre a fazer o mesmo. Alguns gostam e outros não, mas eu não faço os filmes para divertir o público, faço-os para me divertir, e sabem uma coisa? Divirto-me que nem um doido.

A MÚSICA

Componho a música dos meus filmes porque me agrada fazê-los, não para ver o meu nome mais vezes nos créditos. Não tenho nenhum método especial. Simplesmente pego no sintetizador e improviso uma melodia de acordo com as imagens que vejo. Se me agrada deixo como está, se não volto a começar. Quando vejo que não consigo fazer, como em “The Thing” (“Veio do Outro Mundo”), vou procurar alguém. Sempre gostei de música e, bom, estou mais satisfeito com algumas das minhas composições que com outras, mas, de qualquer forma, a minha música é uma parte tão importante dos meus filmes como as imagens.

A IMPROVISAÇÃO
 
A improvisação depende consideravelmente do talento dos actores. A maior parte daqueles com quem trabalhei quer reescrever os diálogos, mudá-los, trocar palavras, algo que compreendo muito bem. E quanto mais poder tem um actor, comercialmente falando, mais elevado é o seu perfil e mais tendência tem a querer improvisar. Mas em matéria de improvisação tive, sobretudo em certas rodagens, experiências más. Aconteceu-me ter que reduzir sequências, ou cortá-las inteiramente, por causa de más improvisações.

OS CRÍTICOS

A experiência que tive no departamento de cinema da USC ensinou-me que as pessoas que fazem filmes e as que os analisam (os chamados “críticos”) têm uma abordagem radicalmente diferente. Ainda hoje fico muitas vezes siderado com as críticas que leio em certas revistas de cinema. É um pouco como se os críticos e os realizadores vivessem em dois planetas diferentes, como se pertencessem a universos regidos por leis físicas distintas.

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