Avançar para o conteúdo principal

Dá que pensar...

Carpe Diem

 Ricardo Reis

Link da imagem
 
 
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio
 
 Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e nao estamos de maos enlaçadas.
                  (Enlacemos as maos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e nao fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                  Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque nao vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                  E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixoes que levantam a voz,
Nem invejas que dao movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
                   Pagaos inocentes da decadencia.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as maos, nem nos beijamos
                    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
                    Pagã triste e com flores no regaço.

                                           Ricardo Reis

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Roquivários no Luso Vintage

Link da imagem O início da década de 80 ficou marcado pelo aparecimento de diversas bandas rock no panorama nacional. A causa foi o estrondoso sucesso do álbum de estreia de Rui Veloso “Ar de Rock” que abriu caminho para novas bandas emergirem. Umas singraram na cena musical, até aos dias de hoje, caso é dos Xutos & Pontapés, UHF ou GNR, enquanto outras ficaram pelo caminho, após algum sucesso inicial. Destas destacam-se os Roquivários que encontraram no tema “Cristina” o seu maior êxito junto do público.    Por Carmen Gonçalves A banda formou-se em 1981 no seguimento do “boom” da cena rock, sob o nome original de “Rock e Varius”. Esta designação pretendia reflectir as influências musicais que passavam por vários estilos, não se cingindo apenas ao rock puro e duro. A música pop, o reggae e o ska eram variantes fáceis de detectar no seu som, e que marcaram o disco de estreia , “Pronto a Curtir”, editado em 1981.   Apesar de a crítica ter sido dura c...

Patrick Wolf em Modo Pop

 Link da imagem O primeiro Modo Pop do mês leva-o a um universo de excentricidades e manias que só um conhecido senhor na onda electrónica podia praticar. Convosco Patrick Wolf.    Por Ana Luísa Silva Menino mauzão, irreverente e deveras surpreendente. É assim que o conhecemos e é assim que ele se deu a conhecer na cena musical. Mas as pessoas vão amadurecendo, mudando e Wolf está a crescer. O adolescente mais colorido da onda indie começou por lançar dois álbuns que de certo modo não passaram de pouco atraentes ( Lycanthropy em 2003 e Wind in the Wires em 2005), juntando delicados toques de piano e cordas à electrónica mais grotesca. Os dois álbuns foram carismáticos e muito “Patrick-Wolf-adolescente”, mas não chegaram para elevar o artista ao estrelato que ele pretendia.  E é com The Magic Position que Wolf consegue sacudir as nuvens negras e manhosas que se instalaram sob a sua carreira com os álbuns anteriores, redefi...

The Feelies em Modo Classic Rock

Link da imagem Um tema original dos Rolling Stones editado em 1966. A letra triste e revoltada, o compasso forte, a voz de Mick Jagger e a guitarra de Richards ficam no ouvido de todos e, umavez que se oiça, é impossível esquecer Paint it Black… Agora em análise no Modo Classic Rock  desta semana, com especial atenção para a versão dos The Feelies: para conhecer ou relembrar. Por Maria Coutinho Depois de ser o primeiro nº 1 de tabelas de vendas onde um dos instrumentos de destaque é a cítara (tocada por Brian Jones), o hino de revolta de Jaegger/Richards ganhou uma nova batida indie/punk pela mão dos The Feelies, a banda de New Jersey que deu cartas na cena alternativa de Nova Iorque desde o final dos anos 70 a 1992. A história da banda é tudo, menos linear: teve de várias formações, diferentes editoras, períodos de actividade e repouso, fracos resultados de vendas, mas muita notoriedade na cena musical alternativa americana. Os The Feelies chegaram a ser conhe...