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Portishead em modo [Trip] [h]op




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Portishead… viagem à profundeza da alma


Numa altura em que o mundo respirava os sons que ecoavam de Seattle, fazendo do grunge o rei do panorama musical, em meados da década de 90, em Inglaterra surgia algo como “the next big thing” (próxima grande novidade pronta a conquistar), a chamada “Electrónica”. Este amplo estilo musical baseou-se, especialmente, no aparecimento de bandas oriundas da cidade de Bristol, exemplo dos Massive Attack, Tricky , ou os Portishead, bandas  que viriam a definir todo um novo género musical: o “trip-hop”. Para uma primeira abordagem  resolvemos fazer uma viagem sonora pelo álbum de estreia “Dummy”, dos Portishead, que foi, e continua a ser (17 anos depois do seu lançamento) um dos melhores (senão o melhor) trabalhos dentro do género.   Confira.

Por Paula Cavaco

Em 1991, Geoff Barrow, DJ que havia trabalhado no primeiro álbum dos Massive Attack, estava decidido a formar o seu próprio projecto, mas precisava de uma voz feminina. É então que o mais improvável acontece: Beth Gibbons, a voz melancólica que se tornaria na “imagem de marca” da banda, é descoberta por Barrow enquanto ambos frequentavam um programa para desempregados. Estavam lançados os lendários e precursores Portishead (que ficam a dever o seu nome à terra natal de Barrow). Posteriormente, juntavam-se Adrian Utley, nome indicado pelo engenheiro de som Dave McDonald (membro “emprestado” para o álbum de estreia).



Quando o quarteto começou a trabalhar no estúdio “Coach House”, (onde Barrow era já “habitué”), a atmosfera foi-se transformando, pouco e pouco, em algo de surreal. Por exemplo, Barrow dava som a filmes antigos e divertia-se a recriar clássicos dos anos 70, de bandas como os “War and Weather Report”, gravando samples com as quais ia construindo as suas composições originais. “Coach House” era sem dúvida uma verdadeira fábrica de sonhos. O resultado de toda essa experimentação electrónica viria a ser “Dummy”, o primeiro álbum dos Portishead, colocado no mercado em Agosto de 1994. 

Lançado no mesmo ano em que o fenómeno do “brit-pop” despoletava, “Dummy” excedeu todas as expectativas e deixou a critica completamente rendida à imensa genialidade da banda. 

Embora as músicas não fossem nada “radio friendly” , a troca de informações entre os ouvintes fez com que a notoriedade dos Portishead se expandisse para além das fronteiras inglesas, chegando à Europa e depois aos Estados Unidos. De facto, bastaram apenas dois meses após o lançamento do álbum, para que os norte-americanos também se rendessem  à sonoridade.

“Dummy” é o som da alma, no verdadeiro sentido da palavra, uma viagem ao coração das trevas que nos deixa emocionalmente exaustos e confusos, mas absolutamente embriagados. Mas isto é apenas a ponta do iceberg...  “Dummy” é o som da insanidade genial! A voz de Beth Gibbons é a luz que transparece por entre a obscuridade, às vezes pura, bela e ressonante, outras vezes desesperada, histérica e, quase na fronteira da mais completa loucura. As composições musicais soam sufocantes, com um baixo poderoso que se transforma numa autêntica lâmina emocional que nos é cravada até ao osso (exagero? Não sei se será...)

Um álbum repleto de uma atmosfera a fazer lembrar um qualquer filme “noir”,  melancólico, hipnótico… no qual Gibbons  revela-se uma sedutora “femme fatale”, ao nos brindar com as suas “performances” vocais roçando o fantasmagórico (tal é a sua entrega). As letras parecem saídas do mais profundo compartimento da nossa alma. 

Somos facilmente lançados neste mundo dos Portishead, engolidos de boa vontade pelo ambiente “trip-hop”, rendidos que ficamos a uma espécie de transe negro, induzido por faixas como “Numb” e “Biscuit”, onde a combinação do “hip-hop”, com as melódicas guitarras e a imensidão de samples são acompanhadas pela voz de Gibbons, clamando por “salvação”. E em “Sour Times”,  uma simples mas sincera frase é capaz de nos deixar à beira de uma verdadeiro ataque de lágrimas: “Nobody loves me, it's true" (“Ninguém me ama, é verdade”), em absoluta solidariedade para com a vocalista.

Em “Roads” – na qual a guitarra nos envolve numa atmosfera com uma profundidade inigualável – a voz de Gibbons treme” de dor. A título de informação, a banda inglesa My Dying Bride (Doom Metal), gravou uma versão de “Roads”, no seu álbum “Like Gods of the Sun” (1996), provando assim o imenso alcance da sonoridade dos Portishead.

A última faixa, "Glory Box", é o “golpe fatal”. Um perfeito “duelo” entre guitarra e vocais, com Gibbons a tentar justificar um relacionamento: “Give me a reason to love you, I just want to be a woman." (“Dá-me uma razão para te amar, Eu só quero ser uma mulher."). E que sensualidade transborda desta faixa (e não só...).

Recordemos este “desfecho” épico … 

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