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Noites Ritual


Linda Martini 

Foto/Irene Leite


O relógio marcava pontualmente as 22h05 quando “a voz” evoca o público ao Palco 1 como uma chamada imperativa. Os Linda Martini estavam para começar. Um roçar de riffs de guitarra intemporal soava no ar quando de repente disparam a música “Dá-me a tua melhor faca”. Corria gente por todo o lado enquanto o som gritava e batia freneticamente.

Por Ana Luísa Silva 

O quarteto com o seu ar melo-dramático, luzes estridentes e riffs contínuos fazem ranger a sua música pelos ares trabalhando como um chamamento divino. Cada vez mais público afluía ao concerto. Especados e fervorosos, esta multidão fervilhava por algo mais.


Numa actuação apaixonada e suada, os Linda Martini não deixam que os momentos de passagem de uma música para a outra, seja sinónimo de monotonia. Os acordes não param e segue-se “Nós os Outros” do novo álbum “Casa Ocupada” lançado em 2010. Em palco todos se agitam, electrocutados pelo roçar constante de cordas, que trémulas não param de fazer o seu trabalho. Ao fundo ouvem-se vozes a ecoar no ar, qual sensação fantasmagórica, enquanto braços brancos e leves sobrevoam moliquentes no ar.


O primeiro “obrigado” da noite surge aquando das primeiras notas do eterno single “Amor Combate”, que é desde logo engolido pela fome insaciável destes seguidores. Ainda que bastante notória a enchente de fãs na frente, o “restinho que se foi deixando para trás” ainda bate palmas e acompanha com batidas de pé.


Com uma presença em palco brilhante e ininterrupta, os Linda Martini seguem com “Cronófago”, fazendo renascer “Olhos de Mongol”. Bastaram três segundos do riff de abertura para que os mais adormecidos se começassem logo a mexer.


Já iam a meio quando a casa é de novo ocupada e saltam de lá três únicas frases que constroem a “Juventude Sónica” do novo álbum. Riffs de baixo plantam um pânico saudável quando a tarola ajuda a perceber o que se segue. “Sentimos no ar a melodia etérea. É a nossa música. Cantamos e dançamos como se fosse a última vez, o último olhar, o último toque, o último beijo. Estás linda.” Fazem com que todas as vozes se tornem uma só. Mãos ao ar, cabeças em frente, todos saltam ao som da incrível bateria de Hélio Morais.


O fim está próximo e as últimas duas músicas vêm com um cartão de dedicatória. Pelo meio ouve-se um dispensável e triste “Morre Cláudia”, que ainda que tenha criado surpresa na banda, não os fez perder a garra.


Sem dúvida que os Linda Martini marcam os palcos que pisam. Com um passado punk e hardcore herdaram a atitude descomprometida e sincera com que encaram a sua música. São únicos. Têm uma presença descomunal e conseguiram mesmo ocupar a casa em mais uma noite de Ritual.


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