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Máquina do Tempo

Por Rato Cinéfilo 

"L'Homme de Rio" é, hoje em dia, um perfeito desconhecido para as últimas gerações de cinéfilos. E quando falo em "últimas" estou-me a referir a um período que vem de vinte ou trinta anos atrás. Contudo, no ano em que se estreou [1964], foi um dos grandes sucessos do cinema francês, tendo sido também muito bem acolhido, um pouco por todo o mundo (pessoalmente tive a sorte de o poder ter visto, aos 12 anos, num grande écran de cinema). Trata-se de um filme aparecido na esteira da grande novidade que foi a eclosão da personagem de James Bond no cinema. Mas para além de se constituir num herdeiro directo dos dois primeiros filmes do agente secreto britânico, "L'Homme de Rio" teve ainda o grande mérito de conseguir revolucionar todo o cinema de aventuras. E que aventuras! De construção extremamente simples (como tudo o que é genuinamente bom), num equilíbrio quase perfeito entre a acção, o humor, o romance e o suspense, o fllme contém ainda uns diálogos deliciosos, tendo dado vontade a muita gente de fazer cinema.

Outra grande influência de "L'Homme de Rio" é a banda desenhada de inspiração belga, com Hergé e o seu Tintin à cabeça. Relembre-se nomeadamente "L'Oreille Cassée / O Ídolo Roubado", livro no qual o filme vai colher muita da sua inspiração, mas grande parte das sequências fazem lembrar situações de outras obras de Hergé. Ambientado em locais exóticos (o Brasil é o cenário exótico por excelência para os franceses), a obra de Philippe De Broca (1933-2004) prenuncia de alguma forma a onda de aventuras que haveria de rebentar muitos anos depois pelas mãos de Steven Spielberg, quando este criou a personagem de Indiana Jones e o fez viver mil peripécias, como nos bons tempos dos serials americanos, onde o herói se vai encontrando sempre em situações cada vez mais difíceis e perigosas. Aliás, honra lhe seja feita, Spielberg nunca escondeu a grande influência que este filme teve na criação do seu arqueólogo aventureiro.    

Aqui o herói é um simples soldado, Adrien Dufourquet, excelentemente criado por um desenvolto e galante Belmondo, ainda no seu melhor e sem direito a duplos (executou ele próprio todas as cenas mais arriscadas), que durante a sua semana de licença em Paris se vê envolvido num roubo de uma estatueta do período pré-colombiana que o levará, a si e à sua noiva, Agnès (Françoise Dorléac, a malograda irmã de Catherine Deneuve, aqui com 21 anos, apenas quatro antes de perder a vida num acidente de viação), até ao Rio de Janeiro e posteriormente a Brasília (ainda em construção na época e practicamente deserta) e às florestas do Amazonas, percurso durante o qual os traficantes lhe irão fazer a vida dura. O filme contém cenas inesquecíveis, encadeadas em alta velocidade, que não deixam o espectador respirar por um minuto sequer. Philippe De Broca, que também assina o argumento, conduz a obra com grande agilidade e muito humor, a que não falta sequer um último piscar de olhos aos problemas ecológicos, muito antes de tal se tornar uma moda.

Nomeado para o Oscar do melhor Argumento-Original, com música de Francis Lai e um punhado de bons actores secundários (nomeadamente Jean Servais, Adolfo Celi e o pequeno Ubiracy de Oliveira), "L'Homme de Rio" mantém toda a sua frescura original, constituindo um belissimo divertimento. Realizado numa época em que, felizmente, ainda não podia socorrer-se de efeitos digitais (seria um filme impossível de ser feito hoje em dia), "L'Homme de Rio" ficará para sempre como algo genuinamente inovador, que serviu de inspiração a todos quantos, ao longo dos anos, quiseram elevar o filme de aventuras ao patamar do bom gosto e do grande espectáculo. 



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